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20
Ago14

Estive quase para acabar com isto. De há uns meses para cá que o desencanto se tem vindo a instalar. Em tudo, nas pessoas, no que leio, no que vejo, nas atitudes. A blogosfera tornou-se uma seca monumental onde todos dizem quase o mesmo. Morre um gajo qualquer e não há blog que não tenha um RIP como titulo do seu último post, como se fosse de imensa importância gritar ao mundo como adoravam aquele gajo e que há anos que o acompanhavam e que nem acreditam e merdas do género.
Vivemos numa época em que todos queremos opinar, as redes sociais vieram abrir um espaço enorme a todos os opinion makers desta vida e é vê-los a dispararem opiniões em todos os sentidos. Mesmo que sem sentido nenhum.
E isto cansa-me.
Quando iniciei este blog (acho que já lá vão uns 8 anos) a blogosfera era algo completamente diferente dos dias de hoje. Qualquer coisa de muito básico onde só "meia-dúzia" de pessoas com gosto pela escrita debitavam os seus pensamentos, suas vidas, seus poemas. A imagem não tinha muita importância, aliás, ainda era numa plataforma onde os templates eram a coisinha mais desenxabida deste mundo. Lembro-me que na época éramos todos muito diferentes uns dos outros, onde se liam sempre coisas distintas. Ou seja, o que encontrava no blog da "jaquina" iria ser completamente diferente do que encontraria no blog do "manel" e por aí adiante.

 

Houve uma evolução, certo, a nível de plataformas, de imagens. Mas e a nível de conteúdos? Muito pouca. Ou seja, os blogues aumentaram e começaram a existir em vez de uma "jaquina", umas 300 "jaquinas" e uns 200 "manéis". 299 "jaquinas" a imitarem a "jaquina" original e quanto ao "manel" já estão a ver o filme.

 

A acompanhar o percurso dos blogues, o facebook e o twitter também começaram a ganhar cada vez mais adeptos. E foi aqui que toda a gente ficou baralhada. Não separaram as águas. Não se pode querer que um blog seja como o facebook ou twiitter. Surgiu a febre dos likes, dos comentários rápidos, dos smiles, da traquitana toda. E era ver gente desesperada nos blogues (quase a cortarem os pulsos) com frases tipo "se não tiver comentários a este post nos próximos....vá, 5 segundos...acabo com o blog" (os dramas que certas pessoas vivem deixa-me seriamente marafada)

 

E de repente foi ver debandada geral para o facebook, onde tudo era muito mais rápido. De repente o espaço à opinião estava aberto a todos, aos que já escreviam há uns anos e a todos aqueles que nunca tinham escrito uma palavra online na vida. E isto é quase como juntar o Ferran Adrià e eu na mesma cozinha. Ele com as suas fitas de beterraba com pó de vinagre e eu com umas pataniscas de bacalhau. São os dois bons pratos? São. Mas não se juntam.

Em conversa há tempos com amigos começámos a elaborar um plano: contactar o Mark Zuckerberg no sentido de criar uma filial do facebook apenas para pessoas inteligentes e com conteúdos interessantes. As pessoas teriam de preencher um extenso questionário para avaliar a sua cultura geral e ainda prestar provas orais. Coisa séria. Se passassem teriam direito a participar nessa "especial" rede social criada apenas para smart people.

 

 

É uma verdadeira utopia tudo isto, eu sei. Achar que tudo quanto são conteúdos chatos, repetitivos, comerciais, desprovidos de inteligência poderiam "rebentar" no espaço que não iria verter nem uma lágrima. Ter a esperança de que algumas pessoas que criam blogs onde descrevem toda (TODA) a sua vida, que criam receitas (por norma grandes mistelas)  só para usarem a porcaria do caldo que a Knorr lhes enviou, que descrevam todos os passeios e viagens que façam com uma cagança disfarçada (mesmo que seja até ali a Belém aos pastéis), que fazem blogs onde publicam fotos com as roupas que vestiram nesse dia, que estas pessoas, tenho a esperança repito, sejam um dia proibidas de escrever. Que lhes coloquem uma faixa amarela à volta do PC ou uma cena tipo aquelas da EMEL. Tudo por um mundo melhor.

O "não gostas, não leias" não pega aqui, porque de facto nunca foram conteúdos que me despertassem interesse. O desencanto de que falava no início do post é do público, das pessoas, é do povo. No fundo só nos é oferecido aquilo que agrada às maiorias. E o que agrada são os programas que passam nas televisões portuguesas, é o Correio da Manhã, são os blogs de que falava.
Aqui há tempos alguém dizia e com muita razão "eu nem peço que o povo se vá manifestar, pensarem já não era mau..."

 

Estive quase para acabar com isto. Precisamente por não me rever nesta "maioria blogosférica". Até que dei por mim a pensar que se não me revejo na maioria, terei certamente lugar numa minoria, que apesar do esforço em remar contra a maré e de por vezes ferir algumas susceptibilidades, fará algum sentido continuar por aqui.

 

Por isso, minorias, vinde a mim que o espectáculo vai continuar

 

 

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