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06
Mar14

O meu pai é do tempo em que se fechava na cozinha a mexer uns ovos, tesouro naquela altura, para ele e para o irmão. A irmã ficava do lado de fora a implorar para entrar ao que ele lhe respondia "Estás muito gorda!"
O meu pai é do tempo em que aos 6 anos ia a pé para Carcavelos espreitar por debaixo dos toldos das barracas da praia e roubava bananas dos ricos que tinham ido a banhos.
O meu pai e os irmãos ficavam à espera do autocarro que lhes trazia uma familiar com carcaças para eles, as quais comiam assim, mesmo a seco.

Hoje em dia escrevem-se livros sobre alimentação infantil, dão-se dicas, conselhos, ensinam-se formas mais apelativas para que os petizes comam a sopa toda, o peixe todo. É um drama alimentar crianças, é um horror, é um martírio.

E eu pergunto-me inúmeras vezes, se a escassez, a necessidade e até a fome não resolveriam esses problemas em 3 tempos.

 

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15 comentários

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De orapazdalaranja a 06.03.2014 às 12:36

muito bom... bem escrito, muito bom, mesmo!

(é isso e a pedagogia da "arrufada")

;)
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De Gaja a 06.03.2014 às 13:29

Arrufada
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De helena a 06.03.2014 às 14:20

Resolvia-se, sim e se os pais exercessem o seu papel e se se deixassem de "ai depois fica traumatizado". Em não havendo muitas opções, come-se o que é apresentado e ponto final, não quer/não tem fome, não come até à próxima refeição, simples.
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De Gaja a 18.03.2014 às 12:26

Exacto! Tão simples como isso! Hoje em dia complica-se tudo!
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De Fátima Bento a 06.03.2014 às 14:31

As coisas agora são MESMO diferentes, isso é impensável. Porque nós sabemos que o que não falta aí é miséria e fome http://www.ionline.pt/artigos/portugal/governo-reconhece-ha-mais-dez-mil-criancas-fome-nas-escolas
e esta noticia tem um ano e meio, imagina agora.
Infelizmente, não é por aí, é mesmo cultural. É o imperialismo minorca. Os reizinhos de serviço, e os pais, os serviçais de plantão.
Uma vergonha, mas os primeiros chapadões eram MESMO nos pais. Por mim falo, não em relação a comida (aqui a democracia sempre foi 'se não quer comer é porque não tem fome, sai da mesa, vai brincar'), mas a muitas outras coisas...
Pelo menos que os paizinhos, quando o boomerang voltar e lhes acertar no meio da testa não ponham as mãos na cabeça e perguntem 'porquê a mim, se fiz tudo bem, certinho, como manda o figurino?'
Não não fez, não fiz. EU sei bem o que fiz de errado. Se voltasse atrás provavelmente repetia, mas assim c'umássim, não me faço de vitima...
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De Gaja a 18.03.2014 às 12:29

Claro que as coisas estão diferentes e é claro também que não desejo fome a ninguém, muito menos a crianças.
Mas sim, os pais têm muita culpa em complicarem coisas tão simples. A fome é uma necessidade tão, mas tão básica que nunca entendi o porquê de arranjarem inúmeros estratagemas para os petizes comerem.
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De Jorge Soares a 06.03.2014 às 17:52

Algures há muito tempo já escrevi um post parecido com este... acho que só quem tem filhos entende estas coisas ... e sim, concordo contigo, muito disto tudo tem a ver com o bem que se vive na actualidade.... só é esquisito quem tem outras opções de escolha.

A minha filha mais nova quando a fomos buscar a Cabo Verde comia tudo o que via em cima da mesa, no prato dela e nos pratos dos outros, ela queria sempre tudo e só deixava de querer quando deixava de haver comida à vista.

Mas isso durou dois ou três meses, a partir do momento em que se apercebeu que na sua nova realidade a comida não era um bem escasso e que para além do que lhe aparecia no prato havia sempre outras coisas que ela podia depois assaltar quando lhe chegasse a fome que não tinha para a refeição, começou a mudar e passou a ser selectiva.....

Jorge
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De Gaja a 18.03.2014 às 12:38

São esquisitos por isso mesmo que falas...abundância.
Lembro-me (e esta é uma história que ficou cá gravada para a posteridade) de uma vez em que a minha mãe não ia estar em casa para fazer o jantar. Decidi fazer uma sopa de feijão. Ora feijão era a coisa mais detestável deste mundo para o meu irmão mas avisei-o logo que não havia mais nada e que não me ia dar ao trabalho de fazer alguma coisa diferente.
Moral da história: a fome era tanta que comeu 3 pratos de sopa.

Uma vez li, penso que era um artigo de um pediatra, apesar de não gostar muito de me guiar por conselhos deste tipo, mas achei aquilo de tal forma simplista que vi todo o sentido naquelas palavras: as crianças têm necessidades diferentes, se umas comem muito, outra não. São diferentes. Ponto. Insistir, massacrar crianças para comer não é de todo o caminho certo.
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De orapazdalaranja a 06.03.2014 às 20:30

uuuiiii... a abundância como justificação de "falta de firmeza" e referenciais de "valoração"... é bonito, sim... deixemos crescer os petizes assim e depois... é bom que no futuro (deles) haja "prozacs" em abundância para lhes curar as depressões, taras e manias...
(esta foi mázinha, hehe... pois foi!)
:P
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De Gaja a 18.03.2014 às 12:40

Eu acho também que a abundância é sim a maior razão para as crianças serem tão esquisitas. Parte de nós, como pais, não lhes apresentarmos essa dita abundância....abundantemente :)
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De Katy a 06.03.2014 às 22:04

Deviam de passar fome im, como passei, isso tudo lhes passava e às mãezinhas também!!!
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De Gaja a 18.03.2014 às 12:41

Passar fome não digo, que isso não se deseja a ninguém e lamento que tenhas passado por isso.
Equilíbrio, esse sim será necessário.
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De 123LetsCook a 09.03.2014 às 09:06

São pratos bonitos e gabo a paciência e criatividade mas não posso deixar de concordar com a ideia deste post.

Cá em casa felizmente não se passa miséria (knock knoc knoc on wood), gosto de mimar os pratos com uma apresentação agradável e muito de vez em quando sai um mimo deste género, uma pera transformada em coelho , a fruta em arco-iris, yada yada. Mas pela piada em si , não porque a cria tem que ser enganada para comer. Porque cá em casa, comida é o que se mete no prato, seja um ovo mexido com salsicha, seja um pato com laranja em cama de "vamos dar um nome gourmet à coisa". E a cria sabe disso. E que remédio tem senão comer o que lhe metem à frente, sem aviõezinhos nem princesas e principes.
Porque a cria, ensinada que não se desperdiça e o pão que não se come não se deita ao lixo, aos 4 anos viu um senhor tirar comida de um contentor e perguntou-me quem se tinha portado mal e deitado comida boa fora e que aquele senhor agora ia comer.

Pela criatividade e miminho ocasional? sim. Para dar a volta a um capricho ? nem pensar.

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De Gaja a 18.03.2014 às 12:46

Acima de tudo, isso mesmo. Ensinar que a comida não se deve desperdiçar!
Um dia destes D.Dinis decidiu que queria comer a bolacha que EU estava a comer!
Dei-lhe, deu 1 ou 2 trincas na bolacha e quando virei costas foi deitá-la no lixo!
Bem! Fiquei de tal forma passada que fiquei sem lhe falar durante 1 hora.
E ele atrás de mim que já não sabia o que fazer e oh mãe oh mãe e desculpa e tal.
De seguida levou uma ensaboadela que acho que tão cedo não se esquece!

É um work in progress....com muita paciência :)

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